quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ouro Preto de hoje, Ouro Preto de sempre

...Bom te passear, Ouro Preto. Bom te usufruir, como o fizeram Afonso Arinos e Pedro Nava, à base da disponibilidade, recolhendo a secreta poesia que se desprende do teu desenho ao sol e do teu noturno recolhimento. Bom fazer a peregrinação de tuas igrejas: a Matriz de Antônio Dias, as Mercês de Baixo e de Cima, a da Senhora dos Pretos, a de São José, a de São Francisco de Paula - cheias de coisas belas: púlpitos, altares, paramentos, imagens, balaustradas, azulejos, claustros, cômodas e armários de jacarandá. Bom ver tuas capelas, tuas fontes, teus sobradões senhoriais de cujas sacadas pendem, nas festas religiosas, belos chalés a compor a figura goyesca de severas matronas. Bom sentir tua ardente circunspecção noturna, traída por vultos de namorados unidos no escuro das vielas e cantos transeuntes de estudantes melancolizados. Bom sair à toa respirando o ar gelado, com o sentimento da saúde do corpo perturbado pela boemia do espírito. Bom parar a cada ladeira para adorar cada pequeno detalhe, uma grade, um ferrolho, um postigo, um corrimão, um lance de escada, um velho telhado, uma pátina louca num muro branco dessas que fariam o fotógrafo Cartier-Bresson viajar continentes.
Bom sentir a presença de teus vultos, a ilustrar com seus nomes a imagem de ruas, casas, pontes, logradouros, fontes: Tiradentes, Marília, o Aleijadinho... Sim, na cidade colonial que dorme, dormem eles, na unidade de suas cinzas e seus ossos, na grande paz mortuária que envolve Vila Rica e fez Carlos Drummond dizer:

Sobre o tempo, sobre a taipa,
a chuva escorre. As paredes
que viram morrer os homens
………………
já não vêem. Também morrem.

Vinicius de Moraes

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